Big Eyes e a história dos Keane

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– A arte é de qualidade se massificada ou se massifica por ser de qualidade?

Dia desses, assistindo ao filme ”Big eyes” que retrata o enfrentamento da pintora, Margaret Keane, pelo seu reconhecimento como autora dos quadros Keane (obras de crianças com olhos grandes, que fizeram sucesso nas décadas de 50 e 60), eu certamente me peguei refletindo sobre essa questão.

No filme é possível fazermos várias reflexões pessoais, desde o posicionamento da cultura machista, predominantemente, católica e centrada no homem, que – inclusive – é bem retratado pela figura de Walter Keane – marido de Margaret, que assume a autoria dos quadros no lugar da esposa e tenta invalidar suas afirmações várias (e várias) vezes. Sendo que, mesmo após o julgamento do caso no tribunal, Walter continuou até o fim da sua vida, afirmando que era o verdadeiro autor das pinturas Keane.

O mais interessante é que a controversa figura de Walter demonstra com coerência que o homem não demonstra ser um monstro dominante, desde o início. Pelo contrário, é por meio da influência, do poder e da confiança que Walter tinha em relação à Margaret que ele consegue manter a farsa por muito tempo. O suficiente para que a pintora se acostumasse com um papel secundário e submisso ao marido.

Verdade é que na cena em que a pintora decide ir ao tribunal para recorrer à autoria de suas obras, eu quase deixei as lágrimas caírem. Já que vê-la, finalmente, encorajada a lutar por seu espaço e por seus direitos foi (sem dúvidas!) revigorante.

Ainda assim, diante de todos esses acontecimentos, retomo a minha principal reflexão:

– A arte só é de qualidade se massificada?

ou ainda

– Quanto pode valer o reconhecimento em termos de qualidade?

Explico: antes do julgamento no tribunal e da popularização das obras Keane, Walter precisou diversas vezes lutar pela divulgação das pinturas – seja alugando as paredes de um famoso bar na cidade – ou – traçando diferentes estratégias de marketing para a venda das obras. Assim, parte notório do sucesso das pinturas vieram do seu esforço engenhoso na venda de cada quadro – e na promoção dos mesmos.

Até que com o tempo, diante de tamanho marketing, aos poucos, as obras se tornaram muito populares, atingindo massivamente o público – que comprava pôsteres, quadros e produtos diversos dos Keane. E foi somente diante dessa popularidade que veio o reconhecimento das obras.

Por isso, fica à dúvida: será que nós reconhecemos a qualidade da arte por nossos parâmetros ou pela forma do vizinho, da mídia e da sociedade?

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Paradoxos Familiares

Paradoxos familiares: quando a janta já esfriou, mas os pais fingem não verem, porque a miopia familiar custa-lhes bem menos do que a realidade.

(Prato posto, café frio e silêncio)

Já que aceitar que o outro não é uma mera reprodução ou extensão nossa é uma dificuldade de tirar o fôlego – de dar um chute no rim – e se contorcer todo. É como a dor daquela gastrite virando úlcera, mas mil vezes pior.

(Mesa cheia – repleta de miopias, vazios e silêncios)

( S i l ê n c i o s )

Porque aceitar o outro: por si só: por quem é: por seus desejos e crenças, já é uma relação complexa. Mas ver os filhos como realmente eles são ou quem se tornaram é uma dessas relações que nem todos os palavrões reunidos numa única frase conseguem exprimir. Já que teriam que se despir da lupa da idealidade que colocaram nos ombros dos pequeninos (que, quem diria, já cresceram).

E estão lá, eu juro, nesse mundão de botar medo em qualquer mãe ou pai que ainda põe a mesa pro jantar. Que ainda se fingem de cegos, porque não querem aceitar ou sequer sentir a dor da realidade – e por isso, empurram todo o peso da idealidade goela abaixo das crianças.

Que ainda hoje – choram – e já nem são tão crianças assim. Mas choram: porque se derramar para fora é um hábito que elas aprenderam a cultivar – todo dia, após o jantar silencioso.

Já que silêncios são feitos de muitas possibilidades, algumas boas, outras nem tanto. Alguns revelam intimidade, outros o incômodo. Alguns silêncios são presentes quando as palavras são incapazes de exprimir os sentimentos – outros são somente para enterrar o que restava do amor.

E acredite ou não: alguns também são só para consolidar a norma familiar – a regra, o intocável e o que é supostamente perfeito, porque no silêncio e na ausência de reflexões não há ninguém que grite por uma realidade melhor – não há sequer mudança, não vê? O silêncio só reflete nossa inércia quando calamos as vozes – e enterramos os sonhos ou a vontade de mudar – o mundo, a gente, sei lá.

A gente é

A gente é.

Você é.

E eu sou.

Conforme, os anos têm passado – eu repito mais, às vezes menos, e têm dias que eu juro que até escrevo na palma da mão. Juro juradinho que coloco – eu sou – ponto.

Ponto para me fazer entender que as vezes ser é algo que basta. Que estar ou não em determinado status quo da vida não me tira a essência de – ser – o que quer que seja. Que ter um dia ótimo não torna a minha felicidade clandestina – em algo eterno – fixo e imutável.

Da mesma forma que ter um dia péssimo não te torna uma pessoa pior. Que de certo jeito, todos nós estamos tentando. Calejadinhos, claro. Cheio das falhas e dos erros constantes, óbvio. Mas a gente ainda sabe levantar. A gente cai. Fica lá uma semana até, mas em algum instante, nós levantamos. E quando levantar, acredite: tem sol lá fora. Tem luz. Têm dias. Um monte deles – de tentativas e de recomeços.

Já que crescer é essa azia constante mesmo. Ninguém quer fingir que não é.

Que café puro ainda me ataca os sintomas da gastrite, da ânsia e do medo de falhar. Que o medo ainda paralisa a gente… Que reticências são usadas para tentar esconder muita coisa.

Que a gente é complexo. Para caralho. Porque, mesmo que não saibamos ainda, a gente é. Ponto.

Ponto. Que nem significa que é o fim.

Não, longe disso… Ponto somente para dizer que a gente tá se bastando.

Ponto para mostrar que nem tudo que encerra significa fim.

Muitas vezes, é um recomeço.

Ponto – e parágrafo.

Fim de um – recomeço de outros (tantos).

A cada 23 minutos um jovem negro morre no país

”9 em cada 10 mortos pela polícia no rio são negros”;
”A cada 23 minutos um jovem negro morre no país”;
”7 em cada 10 pessoas mortas são negras”.

Eu poderia escrever sobre a vida, no entanto, quando eu encaro o jornal – e constato – os dados estatísticos estampados no papel, percebo que eu vivo (em paradoxo) uma vida de quase morte.

Todo dia eu escapo e me escondo da morte, do tiro, dos julgamentos e das sentenças. Só não fujo mesmo é da minha cor da pele (que carrego ainda com orgulho estampado na face e nas cicatrizes de sobrevivente).

Quando acordo pela manhã é quase tiro e por sorte, desvio: sobrevivo contra às expectativas das manchetes. Às vezes, a dificuldade é tamanha que eu penso que deviam publicar ”Rapaz sobrevive a mais um dia de racismo no Brasil”, mas é lógico – nada disso é debatido ou relevante para quem não enfrenta essa mesma luta. Fato é que quando ando pelas ruas, também sou quase preso, mas com calma, explico a minha inocência. Por vezes, escutam as minhas defesas – mas, por outras, não. É que quando olham as vestes, o chinelo esfarrapado (herdado) e a cor da pele, é quase como uma sentença: culpado. E daí, já não importa mais do quê, de quem ou quando. É culpado e pronto. A gente é sentenciado sem nem ser ouvido. Sem nem saber qual é a culpa ou o crime de que estamos sendo acusados. É que ser negro e da periferia parece dizer bem mais do que nós mesmos. É que ainda hoje, ser negro é carregar de forma inerente uma parte do peso do preconceito das pessoas. E ser da periferia é uma eterna sobrevivência, hoje e sempre.

Por vezes, atiram primeiro em mim e perguntam depois: ”morreu?”. Contra as expectativas, eu levanto e respondo que ainda sobrevivo. Ainda luto. Ainda continuo aqui, mesmo que não me vejam.

Alguns dizem até que ‘’atirar primeiro é um modo de defesa e de sobrevivência’’, então, finjo entender que sim. Porém, quando repetidamente atiram primeiro pela minha cor, pelas roupas que eu uso ou pelo lugar onde eu moro, fica impossível fingir que sim. Ainda que eu queira ignorar as mazelas da vida para continuar sobrevivendo, enquanto, a tevê diz que somos todos iguais e que não há distinção no país.

Ainda que, por ímpeto, eu retraia a minha voz, já que me calaram por tantos anos que me fizeram acreditar que eu não era capaz – que o meu sujeito só devia ser passivo no conjunto social. Que eu era tímido demais para falar, quando na realidade, eu fui silenciado por tantas vezes que acabei desistindo de gritar por minha voz – e também por mim.

Por isso, nas manhãs de segunda, eu ensaio em frente ao espelho um discurso inteirinho em que eu possa falar, me ouvir e me posicionar diante de uma sociedade que ainda me cala.

Hoje meu discurso tem quase duas páginas. Há alguns meses, tinha somente uma frase. E com o tempo, conforme, descubro a minha voz – eu adiciono mais e mais verbos, sujeitos, pronomes e locuções todas. É que eu quero ser sujeito com os complementos todos. É que eu mereço ser cidadão com meus direitos todos – mesmo que para isso, todo dia seja uma experiência de quase morte e de uma vida inteira condenada à sobrevivência contra às estatísticas alarmantes.

Blackbird

– O que eu faço?! – desesperou-se tanto que paralisou. – Como que eu faço para voar? O que há além das minhas grades? Por favor… Eu só quero que alguém me diga o que tem fora daqui. Longe da minha visão, de mim, do meu pequeno mundo engaiolado… Eu… Só preciso saber o que existe além daqui. – e então, todos ao redor, encararam-no com repleto espanto.

Como que um pássaro poderia ter medo de voar?

Todas as outras aves não compreendiam aquela inusitada situação. A verdade é que elas não sabiam a história do pequeno Blackbird… Assim, jamais imaginariam que, na realidade, as suas asas foram tiradas ainda quando recém-nascido (por algum problema genético desconhecido) e que, desde então, vivia para o seu sonho de voar.

Então, estranhamente, cresceu e viveu toda a sua existência fadada à teoria de que jamais voaria, porque isso estaria supostamente além da sua capacidade. (Ainda que dissessem que seria incapaz de sair do chão, blackbird vivia constantemente para o seu sonho de ir além das gaiolas e de conhecer tudo o que mundo poderia ter de melhor para lhe ofertar).

(E o que ninguém fala é que se repetirmos tanto uma mentira para nós mesmos e para os outros, em algum momento, todos irão acreditar que a mentira possa ser verdade. Então, nesse instante, o mundo vai pesar demais, já que você não vai acreditar em si – e os outros também não. Assim, é fato que se prendermos um pássaro ele será infeliz, mas o pior é sabermos que ele acreditará na mentira – de que não pode voar e de que é incapaz de enfrentar o mundo além das suas grades).

(E quem é que nunca duvidou de si? Ou teve medo tanto de ir além do que conhecia?)

Assim, ele sonhava todas às noites com o mundo que poderia existir além da sua gaiola. Dormia feliz, porque nesse instante ele podia acreditar que estava voando como todos os outros e que se voasse poderia finalmente ser perfeito. Seria até feliz. Estaria longe da sua prisão, seria livre e a liberdade o tornaria para sempre feliz. (Ao menos é o que acreditava).

(Porque somente quem conheceu a felicidade é que sabe que ela nunca é para sempre).

Então, certo dia, quando acordou e se deparou com um par de asas remendadas em sua gaiola, ficou em completo choque. Estarrecidinho todo. Todo, completo de uma esperança e de dúvidas: será que poderia voar? O poderia existir além da sua gaiola? E se ele não merecesse aquele presente e estragasse as asas? O que seria dele?

(O que é que resta da gente depois que fracassa ou comete algum erro? Se erramos, somos de fato o erro? Ou é o erro que não é nada para nos paralisar tanto assim? Se não erramos, quer dizer que finalmente estamos certos? Ou será que a certeza, no final, não consta somente como um outro erro?)

(As perguntas não param… As dúvidas nunca param… elas só servem para paralisar os outros).

(Take these broken wings and learn to fly… All your life… You were only waiting for this moment to arise).

– Voar parece assustador. – pensava, enquanto, costurava as asas remendadas em si mesmo. Voar é uma espécie de adeus e partir é devastador, compreendeu.

(Devastador para quem vai. Avassalador para quem fica).

(Mas a liberdade também é assustadora).

– E se eu não for capaz? – dizia aquela voz que sempre tenta impedir as vitórias ou os grandes momentos… Ainda com as costuras prontas, ele duvidava de si. Sua fé de que podia voar era pouca.

(Mas felizmente o sonho era muito).

– Mas e se o mundo for demais para mim? – insistia a voz que tenta bloquear as mudanças.

(A verdade é incompreensível e é a conclusão de que alguma maneira o mundo é demais para todos. Ao contrário do que possa parecer, a gente não nasce voando… A gente nasce estranho e nasce também: caindo, despencando num mundo desconhecido e repleto de dores. Porém, que de alguma forma, ainda é repleto também de belezas e amores. Então, a conclusão e a brevidade é de que nós caímos – mas ainda com as quedas, conseguimos guardar algumas esperanças e forças para nos levantarmos no dia seguinte. Erguendo-nos de pouco em pouco. De fé em fé).

(E acredite ou não… Aconteceu!!!).

Enfim, a vida estava fora dos parênteses e o texto percorria livre.
De alguma forma, Blackbird também.

Não é que agora ele seja perfeito, já que um par de asas não o tornaria completo…
Da mesma forma, não significa que a liberdade seja perfeita, porque não é. Escolher fora dos parênteses e dos treinamentos é de causar ansiedade, pânico e gastrite de uma só vez. E por mais estranho que a verdade possa parecer: é fato que não foi nenhuma das suas crenças errôneas que o tornou momentaneamente feliz.

Foi o que ele não acreditou, eu juro.
Foi quando a mentira foi compreendida como mentira.
Foi quando ele se compreendeu e se viu como um pássaro capaz. E acreditou na verdade, em si mesmo, e voou.

Blackbird singing in the dead of night
Take these sunken eyes and learn to see
All your life
You were only waiting for this moment to be free

Nós temos vozes.

– Eu tenho voz. – constatou em completa surpresa. Carolina encarava-se no espelho, ponta a ponta, desde os seus cabelos cacheados, volumosos até o mindinho dos seus pés. Era tão estranho compreender que, ao contrário, do que a fizeram acreditar durante longos anos, ela verdadeiramente possuía voz e desejos – sonhos e autonomia.

A única coisa que lhe faltava não era por sua responsabilidade, mas sim, por ausência de legitimidade social. Afinal, por mais que tentasse usar a sua voz – ela era silenciada diariamente e os outros não lhe davam ouvidos. Isso aconteceu por tantas vezes que chegou a acreditar que não falava de modo compreensível ou ainda que a culpa de ser calada era por sua voz aguda e fina – que a culpa era sua, afinal.

Tanto foi a crença de que o problema era ela que decidiu por deixar atrofiar as cordas vocais, deixou tanto que a sociedade começou a acreditar que era muda e sem vontade própria – quase um objeto, apontaram os homens todos – uma imagem, insistiram.

De repente, Carolina nem soube como ocorreu, mas lá estavam suas fotos espalhadas por toda a TV, revistas, jornais – lá estava a mulher sem voz ao lado do engradado de cerveja do fim de semana. Então, diante da sua objetificação, ela decidiu gritar que era gente, ser humano, pessoa com voz – que merecia ser respeitada, e eu juro, ela gritou tanto, tão sensível e cheia de dor que pela primeira vez a olharam nos olhos – e perplexos, decidiram que era louca. Completamente desvairada, sussurraram. E antes que a sua voz pudesse incomodar ou influenciar mais alguém, mandaram-no para a solitária.

Acredite ou não, Carolina não parecia triste naquele cômodo, porque finalmente percebeu que sempre possuiu voz e que a culpa não era sua, mas de um todo social que não tinham ouvidos para lhe escutar de verdade. Assim, independente, dos outros, da sociedade e da culpa, ela havia finalmente compreendido: – eu tenho voz e jamais me deixarei silenciar de novo.

Ap. 102 – 20/01/18

– sobre o que é estar vivo? o que é um ser com vida? – escrevo num post-it e deixo colado na janela como uma observação pra que eu busque a resposta. não é como se ela fosse brotar na palma da minha mão, enquanto, eu observo o velho bilhete – mas pelo menos, ao notá-lo todos os dias, consigo verdadeiramente me recordar de que existem perguntas as quais não tenho respostas (ainda). e não tê-las é o que me faz levantar da cama toda manhã. eu levanto, porque mesmo que a existência seja tão efêmera e meu possessivo quase um indefinido dos pronomes casuais, ainda existem perguntas as quais eu gostaria de saber responder.

nesse instante, ensaio – timidamente – meu discurso em algum congresso de alto porte. mentalmente, imagino: todos aplaudindo ao ouvir meu nome – anunciam: o cara que mora no 102 (bom porte físico aparente, adiciono) achou a resposta sobre a existência, bem vindo, Ricky! (também ensaio que algumas moças gritem que me amam e me acham maneiro, ou sei lá).

também iria aparecer no faustão e fingir umas lágrimas pra me acharem sofrido, pra conquistar a audiência que poderá gostar de mim. e assim, serei rapidamente uma celebridade – e tão rápido quanto, será o esquecimento em que eu cairei. porque viver de alguma forma é somente um limbo da consequência de existir, de forma que, mesmo nos meus delírios e ganâncias de ser famoso, reconhecido, celebridade – o bonitão da tv – eu também reconheço que parte do sucesso é fracasso. que ao atingirmos o auge, teremos que enfrentar o próximo passo que é a queda. então, de vez em quando, eu acordo e observo o post-it (até mesmo me trapaceio, porque eu realmente sinto que nem sempre estarei preparado para subir tão alto para precisar descer depois).

sábado – cuiabá – 34° graus infernais.

Ricky